quinta-feira, 28 de julho de 2016




A FELICIDADE NUNCA SERÁ, SE NÃO FOR AGORA.

“...para um dia eu ser feliz! ”
Essa é uma ilusão que alimenta o instinto de sobrevivência. O ser espera, ao invés de proporcionar, por falta da própria observação e abnegação das imposições.
A felicidade não é um estado constante. Só existe felicidade se você der e receber amor. Não só para as pessoas, mas para tudo nesse universo. Só conseguimos sentir felicidade quando nos conectamos com a beleza que há em tudo e ao invés de sentir medo, ao invés de recuar diante do que parece novo, deixarmos fluir e se embrenhar no sentimento que essa conexão proporciona. Por exemplo: não amamos nossos pais. Só existe amor pelos nossos pais quando estamos diante deles, num momento de harmonia, e quando pensamos neles com o sentimento puro de admiração. Nesse momento, estamos emanando energia para eles. E eles, ao sentirem-se bem, emanam de volta.
Quando você está pensando, concentrado em seu trabalho, por exemplo, seus pais não existem. Não existe conexão com eles, portanto, não há amor.
O ser humano aprendeu que ao começar uma relação, existe uma relação de amor. Mentira!
É preciso repensar essa condição. Pois pensando assim, relaxamos e continuamos desconectados. Permanecemos presos no conceito de que se está numa relação de amor, pura e simplesmente. Acreditar, sentir e compreender que amar é conectar-se com o pensamento ou com os sentidos: ver, tocar, abraçar, ouvir, cheirar, faz com que procuremos mais essas conexões, uma vez que saberemos: sem estas conexões, não existe nem a relação.

Toda existência que você acredita existir, só existe quando pensamos nela. Façamos uma experiência mental: ao perder gradativamente os sentidos, o olfato, a visão, o tato, o paladar e a audição, nada passa a existir. Por isso não amamos quando não estamos com os sentidos ligados em alguém ou em alguma coisa. Amar é produzir a felicidade, portanto, amemos agora se quisermos ser felizes agora.


Marcos Gacê

quarta-feira, 18 de novembro de 2015



COISAS DE 17 ANOS

Não sei se é preguiça, descrença ou covardia, mas a palavra não sai. Ela sequer pula em suicídio, do alto do meu dilema, para ao menos se estatelar no chão e como vítima, satisfazer os moralistas que acordaram cedo, que se desviaram de seus empregos e seus assaltos, atraídos pelos meus pasquins de hipocrisia.
Mas como todo ímpeto de renúncia parece precedido de um naco de luz ou treva, alguém me interrompe, no exato momento em que um de meus pés paira no ar de minha ribanceira existencial:
- Eu estava fazendo coisas de menina de 17 anos!
Eu já tive 17 anos. Mas não lembro o que fiz com a menina que existia em mim.
De que adianta ser um homem cheio de compartimentos, gavetas, pavilhões e calabouços se não sei o que fiz da menina que, hoje sei, me completaria?
Por anos expressei supostas e inconscientes respostas e, talvez por isso, uns me chamam, poeta. Por verem sair do meu portão central, algumas vezes por ano, zumbis estéreis para cumprir suas liberdades condicionais. Por testemunharem a saída, desse presídio que sou, de anciãs que cumpriram uma pena que inventei. Inventei porque ela não sai.
Qual o delito da menina que vivia em mim? Por que ela não sai?
Com o chicote de Deus e a espada da justiça nas mãos, trancando portas a falo e gritos, contendo rebeliões e motins venusianos, do que adiantou ser o rei menino por tanto tempo?
Cadê a menina? Quem é o condenado agora?
E foi aí que a “ocupada” me disse sem abrir a boca. Com os olhos que só uma menina de dezessete anos pode ter:
- Não adianta abrir a porta hoje. Meninas viram mulheres ou morrem. A sua, aquela que não sai, foi morta pelo seu cárcere social.
- Só os poetas de verdade conseguem voltar no tempo de suas meninas para devolver a elas, suas coisas dos dezessete anos.


Marcos Gacê

domingo, 22 de março de 2015

FARPA DE VIDRO



Minha felicidade é daquelas companheiras que ao chegar à festa ou ao bar, escolhe seu canto e de lá, observa quem bebe, quem fuma, quem beija, quem come, quem some, quem urge, quem suja, quem bole, quem rouba, quem devolve, quem dança, quem cansa, quem compra, quem doa, quem chega e quem vai.
Às vezes vou embora furtado de pudor ao carregar o espólio dessas guerras noturnas e nem percebo que a deixei por lá. E ela fica. Fica para observar e tomar nota daquilo que nem imagino ser possível existir. Mais tarde, em letargia, ouço o ranger de portas e a presença daquele calor que só faz no outono da metade das nossas vidas. Ela se deita, com a maestria de quem não quer me acordar...
Outro dia, nos aprontando para mais uma noitada, calçando os sapatos, tive coragem de perguntar o que a muito me atormentava. Um paradoxo por sinal. Após tantos anos na árdua missão de me servir, seria minha felicidade, feliz?
Ao virar, deparei-me com o vazio dos invernos que hibernam nas costelas de nossas vidas. Ela já havia tomado um táxi para chegar à frente e marcar meu lugar.
(GACÊ) Março/2015

sábado, 24 de agosto de 2013

_O DE SEMPRE SENHOR? _NÃO. TRAGA-ME O CARDÁPIO!



Era quase meio dia, hora do almoço, quando uma das paciências se esgotou.
- Gacê, Deus deve ficar triste quando te ouve falar dessas coisas. Dessas novas crenças e referencias que insultam sua doutrina e seus ensinamentos. Aceite seu Deus pai, todo poderoso e será mais feliz. Só Ele pode te dar conforto e te reservar a paz eterna. Deixe Jesus ser seu amigo e governar a sua vida – suplicava Camilo com uma veemência, verdadeiramente, tocante.
- Como pode alguém que nunca vi e nem conheço, governar a minha vida? E pelo que sei, é a única que tenho. Quem garante que deus é soberano, que criou toda a existência e a ele, todos devem obediência e temor? – questiona Gacê pacientemente.
A Bíblia sagrada – profere Camilo. Ela é a palavra e lá esta escrito!
Camilo. – Gacê inclina-se fitando os olhos de seu amigo. – você sabia que a milhares de anos atrás a divindade na terra era representada pela mulher e que, posteriormente, por uma série de descobertas e interpretações, a mulher sai de cena e dá lugar ao homem? Sabia que deus já foi representando por um falo? Sabia que a humanidade já foi e nos dias atuais, algumas tribos e ate países ainda são regidos pelo politeísmo?
O que me diz das outras religiões não cristãs e suas doutrinas tão adversas que regem, até hoje, a vida de centenas de milhões de homens em todo o mundo?
Não estou pedindo que abandone sua crença, mas seria interessante que você pesquisasse, lesse outros livros que relatam a história da humanidade sob várias óticas e instrumentos. Conheça a ciência, seus efeitos e constatações. Conheça, principalmente em outros livros, a metamorfose frenética do comportamento e do pensamento humano durante os tempos.
Bem antes da invenção da escrita o homem procura de alguma forma registrar sua cultura, sua organização social e suas descobertas. Diversos documentos, relatos, objetos, fósseis, experimentos, monumentos e principalmente, os livros, em todas as partes do mundo, durante os tempos, abrem um leque variado para interpretações livres a respeito de nossos questionamentos mais básicos.
- Eu não acredito em nada do que você está dizendo. - Camilo rejeita serrando os olhos numa incredulidade quase irônica.  – eu acredito na Bíblia e isso basta para que eu seja fiel ao meu Deus e seu filho amado, Jesus.
Gacê suspira recostando na cadeira daquele pequeno restaurante das horas dos almoços de longos 25 anos. Com as duas mãos entrelaçadas, apoiando a cabeça pela nuca, sorri e sugere ao amigo que os estômagos já deveriam estar fartos das bocas dançarem tanto e nada descer pelas goelas.
- Vamos almoçar amigo!
- Já é tempo! Diz Camilo com certo alívio e pesar!
- Posso te fazer uma pergunta? – Gacê inclina-se sobre a mesa em direção ao amigo. – Você está em uma caverna. Perdido numa mata. Há cinco dias você padece com frio, medo e muita fome. Aí então eu apareço numa noite, trazendo um pote grande com uma quente e deliciosa sopa de arroz, e lhe ofereço. O que você faz?
- Como é claro! – Camilo responde sob a fresta de um sorriso curioso.
- E que gosto tem a sopa de arroz?
- De arroz, obviamente! – Camilo sorri sob as portas escancaradas de um sorriso debochado.
- O que matou sua fome Camilo?
- A sopa de arroz do meu amigo Gacê! – Diz gargalhando como quem pergunta aonde você quer chegar com isso tudo.
- E se ao invés da sopa eu lhe trouxesse numa mochila, vários potes e neles, pedaços de frango ensopado, purê de batatas, feijão com pedaços de bacon, arroz branco, verduras frescas, porções de lombo defumado, postas de peixe grelhado, frutas frescas, chocolate e um frasco de vinho, meu amigo Camilo?
- Nossa! – Sussurra Camilo fechando os olhos em êxtase. – Eu comeria todos é óbvio!
- E qual desses sabores matou a sua fome?
Camilo paralisou o rosto e um silêncio ilustrou, talvez, o que existia antes da grande explosão ou das primeiras palavras de Deus no momento da criação. Sua duração? Talvez como a que é preciso para dar uma volta no universo ou a mesma que tem a vida eterna no céu. Um silêncio denso e paradoxal, quebrado por Camilo, numa resposta maior que a fé e menor que um átomo.

- Todos.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

ESTÁTUA QUENTE





O Problema nem é a dor, mas o calo que compromete a estética da minha vida.
Crava-me o sinal frio e traumatizado da blindagem.
Desidrata meu coração como se faz com ameixas que secas, dão charme e sabor de nada para um bolo de conveniências.
Ultimamente meu hálito é tão doce que contamina meus planos, amargando os resultados e enfadando meus alvos.
Ultimamente, quero voar como quer um carvalho enraizado.
Petrificar-me para não putrefazer em sentimentos.
E das pessoas, de todas elas, ter somente admiração que se tem de estátua. Eternamente!
É solitário sentir a morte. Seu cheiro e seu peso. Morte do sonho que ironicamente deixa o corpo vivo para o velório da alma. É inevitável a ira que brota da impotência, e frívolo, saber que desse esterco, adubo o conforto que cresce na arte, minha companheira mais fiel.


Marcos gacê

quinta-feira, 27 de junho de 2013

NEM TUDO É JAZZ!


"É possível que eu esteja, agora, nesse exato momento, me comunicando com um produto da minha mente. Pode ser que não exista nada e que tudo é produto dos meus sentidos, inclusive você que está lendo esse “hãslhhsh”. E deve estar se perguntando: como pode não existir nada fora de você sendo que estou aqui te lendo? Te respondo: tive que criar semelhantes a mim. Estranhamente a solidão persuade antes do entendimento. Mudei várias características porque seria um tédio viver comigo mesmo em todo lugar que minha mente cria para meu próprio destino.
Bom, mas vamos mudar de assunto. Preciso de uma contradição, posto que se não, vou falar o que não devo pra mim mesmo. Tudo no universo está em movimento. Aliás, dois imprescindíveis movimentos: rotação e expansão.
Duas coisas formam tudo que conhecemos: energia e matéria. Sem o movimento não seria possível a formação de nada. É o movimento que determina o encontro de partículas que formam tudo. A energia vem e cola. Uma vez que esta também é excitação de elétrons. Se eu ficar com meu braço parado, a energia e a matéria em volta dele (braço também é matéria e energia, tá?) terá um tipo de reação. Se eu movimentar o meu braço, desloco energia e partículas ao redor dele, criando uma onda de reações. Movimento. As partículas e moléculas de oxigênio, por exemplo, no arraste do braço vão empurrando suas vizinhas, criando uma onda interminável.
O que falo determina seu movimento. O que ouço de você determina o meu. O que você entende do que falo, determina que tipo de movimento você vai fazer e vice-versa. Por isso para mim não existe Deus. Não existe milagre. Assim como o cérebro aciona o sistema imunológico para produzir no corpo, glóbulos, secreções e outros tipos de defesas contra um vírus, por exemplo, ele pode também reconstituir tecidos, matar células cancerígenas, produzir mais ou menos substância e afins. Isso não acontece com frequência, pois não sabemos explorar com maior destreza o nosso cérebro, e é aí que entra a questão da fé. Daquilo que se chama de “fé”. Fé é tirar mais proveito do cérebro do que o normal, fazendo com que ele nos cure, nos faça sentir e nos faça movimentar a ponto de deslocar ondas de energia e matéria até ser montado ou construído o objeto de desejo. Ao passo que: se não pensarmos com mais eficiência não se terá fé, não se terá movimento e não se terá o que se deseja. Amém?!"
Aí o celular toca pela vigésima terceira vez. Dele, uma voz debaixo de dois edredons se arrasta já quase sem esperança: "pare de beber! “Vembora” pra casa vagabundo, você tem que trabalhar daqui a pouco, seu cretino."

Marcos Gacê

terça-feira, 11 de junho de 2013

AH! SE A VIDA FOSSE BALDEAR.


Houve um tempo em que eu andava mais de ônibus. A maioria das pessoas fazem isso quando não tem seus carros. E eu, só andava. Não era transporte, era meio de locomoção: um dos itens da derradeira cartilha da vida inventada. Uma rotina pra se cumprir. Eu era mais um pedaço de carne se locomovendo no esquema sistematizado da sociedade. O curioso é que em algum momento da “evolução” algo dá errado, ou certo demais. Deixamos de ser carnívoros para ser gourmet. De ser destinatários para ser razão de itinerários.  
Porém, esse “blá-blá-blá” tem sua compensação. Usar o ônibus não é só ficar pulando de galho em galho. É preciso apreciar o ponto. O ônibus te faz esperar, você não o controla, se tem uma estimativa de quando ele passa. No ponto é possível sentar na angústia ou na oportunidade de ler e ser lido, ser o ouvido, informar-se aos goles mastigados, observar o gado, guiando propriedades ilusoriamente claustrofóbicas, muitas vezes, financiadas em até 60 meses.
E passam-se os ônibus! É engraçado como estamos sempre querendo viajar, sempre à iminência de obedecer a uma misteriosa força perdigueira. E os ônibus passam! Tripudiam a carência que escorre do canto da boca aberta. Passam vazios, lotados, curiosos, limpos, sujos... param quase em cima da gente. E dá vontade de penetrá-los! Pois a vida não foi feita para esperas e nem demoras. Já entrei em muitos e nunca me arrependi. Quando se tem coragem, certas doutrinas caem por terra e é revelada a recompensa das novas experiências.
No ônibus é possível encontrar inteligências para todos os gostos; o silêncio é colorido e randômico; os cheiros atrevidos, arrogantes, perniciosos e concupiscentes ao mesmo tempo, por não serem exalados por regras e nem ordem conveniente. Os olhares são todos os semáforos possíveis, de vastas cores guiando um tráfego frenético de pensamentos. No ônibus tem furto, tem gentileza, tem volúpia e o amor sempre pega carona por passar desapercebido à falta de “autoridade”. No ônibus você ri, chora, dorme. No ônibus a viagem nunca é a mesma, tem sempre uma expectativa do bem ou do mal. O ônibus te leva, te busca e te entrega, onde quer que você queira. Do ônibus se esquece, se lembra, se quer a chegada, quase de graça, sem satisfações. No ônibus se entra: em uns, por traz, em outros, pela frente. Não se pede permissão para pegar. Aquele que você quiser, vai te levar às suas escolhas, as quais, provavelmente, o habitual não levaria.
E é “nele”, não como boi, mas como águia, que se conclui: o “transporte” deveria ser feito somente pelos ônibus, mas com uma condição: que seus usuários deixassem de ser, somente, malotes de carne e osso de um lado para o outro e aprendessem a aproveitar a vida que não se tem naquilo que é o sonho da maioria das pessoas: a posse e o cárcere do “carro próprio”. Onde o diálogo é menor ou nulo, onde o calor é condicionado e geralmente se está só. Se goza só, sob a apólice de seguro das poucas liberdades.
Eu tenho carro próprio, mas me dá saudade de andar de ônibus.



Marcos Gacê

Revisão: Marçal Filho





sábado, 27 de abril de 2013

A MULHER QUE ME ENGRAVIDOU




Ruiva! Media 1,67m. Tinha um longo pescoço sustentando aquele rosto oval, impregnado de olhos verdes, cheio de bocas nas mais variadas condições de oratória e destreza física. O nariz seccionava um lago de sardas charmosas – adorno meio Art Nouveau que fazia jus à classe de sua concupiscência. Quase infantil no abraço, sem deixar nenhuma possibilidade de pedofilia. Corpo esguio, branco, tatuado por aquela mesma espécie de sardas que eram seixos no leito dos seios, dos quadris e do púbis. Um cheiro para poucos – se existe pecado, este seria, expor a olfatos de senso comum, tal iguaria aromática rara. Louca por literatura, filmes italianos e franceses, Chet Baker e Chiquinha Gonzaga. A perfeição, forjada de defeitos pervertidos. Eu sempre tive um fascínio pelas ruivas, talvez por não serem as minhas preferidas e, os paradoxos tem lá seus domínios sobre mim. Seu nome? Recuso-me a dizer - não é nada oneroso para esse conjunto na mulher que roubava minhas respostas e as escondia entre as trincheiras do cabelo longo, no aconchego da boca e na insanidade da vulva. Certas mulheres não carecem de nome, porque não carecem de chamado. Elas sentem o cheiro de sua urgência, como “Ela” sentiu o meu naquela tarde de maio sem ano.
Balbuciava Nina Simone, acho que era Feeling Good, quando saiu do banho ajeitando a toalha sobre os seios. O cabelo era um tronco retorcido, nascendo das costelas e abraçando o pescoço. As gotas de água deslizavam sobre a pele como carinho de mão. De repente tudo parou e ela aconteceu nua sobre mim e sobre todas as horas do resto daquele dia.
Então veio a gravidez. Era inevitável e preciso. Os sintomas começaram a aparecer meses depois que “Ela” sumiu no mundo, sem dar notícias. As dores começaram a ficar mais fortes e as contrações pareciam ondas gigantescas impondo uma nova geografia, preparando a existência para receber uma dádiva – o fruto de uma paixão que não deve ser condenada por ter sido tão efêmera – ela era a compilação de uma vida inteira na beleza de poucos dias. Entrei em trabalho de parto, fechei os olhos e me confortei nos sentimentos e sensações, que eu havia vivido com ela meses atrás, ainda impregnados em meu corpo, e dei a luz à minha filha mais querida. Simples. Linda. Saiu de mim já com letra e melodia e atende pelo nome de “Ilha-me”

Marcos Gacê




Correção: Vanderlei Timóteo - http://vanderleitimoteo.wordpress.com/

terça-feira, 23 de abril de 2013

VIDA ARRIADA



O "Juca Batista" é um conjunto habitacional de prédios, aqui “nas Itabira”. As garagens nem sempre são para guardar carros. Há uns 10 anos atrás, eu subia de carro e via numa dessas garagens uma fabriqueta de celas de montaria. Muito couro, formas, enfeites, fivelas, muitas cores, ferramentas, tilintares, encomendas, cheiros, sol, hora do almoço, conversas, contos, promessas, lembranças, sustento, alegria e compromisso. Devia ter um rádio! Claro. Ave Maria, uma breve prece de manhã e a tarde. Tinha pregos e cola. Tecido. Gente entrando e saindo. Tinha os cumprimentos rancheiros, civilizados, atualizados e tinha uma garrafa de café. Eu não a via, mas tinha. Tem até hoje essa lojinha de celas dentro de mim, com uma riqueza indecifrável e com o vigor de seu aparentemente, dono – um senhor de 70 a 80 anos, cabelos brancos, alto de rosto retangular e sulcos longilíneos. Os olhos eram acoplados no sorriso fácil e satisfeito. Sorriso ocupado, sorriso empregado. Sorriso útil. Eu via tudo isso nos 2 ou 3 segundos que meu carro passava em frente a essa loja. Parecia que era uma missão, gravar cada detalhe daquela cena de vida, para reviver nos tempos de hoje. Quando eu passo em frente a garagem, lá está a parede sem placa. Um carro é o novo inquilino e do lado de fora, perto da metade do portão que guarda o valioso bem automotivo, que certamente não precisa de cela e nem tradição, sentado sozinho numa cadeira nua, está o mesmo velho, porém com uma nostalgia aposentada tão grande, que pende seu olhar para o nada.


Marcos Gacê

quarta-feira, 14 de março de 2012

A MUDINHA DE PAIXÃO



Eu devo ter uns doze anos, mais ou menos. Moro na esquina da rua da qual não vou morar mais daqui um tempo. Tenho olhos verdes, e vou para a escola todo dia.
Ando meio triste de uns tempos para cá. Aliás, nem sei se é tristeza. É que ultimamente tudo anda tão chato! Não tem mais graça brincar com as bonecas que eu tanto queria no ano passado e agora, tenho que ir para a escola todo dia. Todo dia eu tenho que fazer tarefas, vagar pelo terreiro, debruçar no parapeito de balaustres e ficar olhando o dia morrer na minha cara. Eu não sei que horas chego da escola. Alem do que eu contei aqui, não sei mais nada de mim. Só sei que todo dia eu vou para a escola, porque espero a van no portão da minha casa. É lá que minha paz de criança que não quer mais ser criança e meus olhos claros são roubados por aquele moço que passa no carro preto. Eu não entendo, mas fico com vergonha quando ele passa. Fico sem jeito e curiosa, tem tantas coisas dentro daquele carro... Aquela cara ruim é tão pesada, cheia de passeios, de festas, de brigas, de reencontros, charadas e descobertas. Ele me cumprimenta sem olhar, parece me condenar por eu estar no caminho da sua notável austeridade.
Minha mãe sempre disse para não encarar os estranhos, para não falar com eles e para tomar cuidado, principalmente, com os homens mais velhos. Ela disse que muitos deles conseguem o que quer da gente usando simplesmente palavras. Ah, as palavras! São poucas as minhas, mas são tantas as que querem entrar em mim. Acho que tenho outro jeito de comunicar, de penetrar as pessoas de forma tal, que as tornem incomodadas com um certo tipo de atração natural em mim.
Hoje estou usando, especialmente, as palavras porque sei que ninguém vai ler sobre o moço do carro preto. E talvez um dia eu as use, demasiadamente, com ele. Quero saber por que me dá vontade de sair da rotina do portão, do balaustre e pedi-lo pra que leve embora minhas dúvidas, minhas vontades estranhas e essa vulnerabilidade civil para dentro daquele carro onde tudo cabe. Minha mãe não pode nem sonhar com esse pequeno plano... Ainda bem que preciso ir à escola todos os dias.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ARMA BRANCA.



Acordei tarde hoje. Mesmo assim vou tomar um café com mais tempo. Sentado. Sinto, especialmente hoje, que preciso cuidar mais de mim, aliás, preciso cuidar do que está à minha volta, das coisas que vejo, das coisas que toco. Que diabos é essa vontade de cuidar do mundo? Talvez não seja cuidar, mas fazer alguma coisa por ele. Estou com medo de entrar no carro e ir trabalhar, principalmente pelo trânsito: essa serpente interminável expelindo veneno por todos os lados. Os homens desferem palavrões ao lado de seus filhos no banco de passageiro, como se estivessem num ritual de iniciação. A vida se esquiva dos carros, dos socos, das facas e das balas, como uma menina magrela e branca seminua procurando abrigo nas sombras, simplesmente para não ser percebida correndo o risco de qualquer acaso ceifar-lhe a vida banal e patética. Não adianta! Preciso sair. Tenho que trabalhar e viver, mas hoje eu não vou com medo. Vou armado pro trabalho, para o trânsito e para vida. Vou começar a por ordem nessa quarta-feira amarelada. Vou sacar a arma para o primeiro que sair da linha. Em certos momentos agir fala mais do que conversar. Entrei no carro, o carro na rua, a rua na avenida, a avenida no direito dos outros e o direito na volatilidade das conveniências. A paz, até então, me incomodava. Estava determinado e ansioso para por em prática a nova missão. Só precisava de um motivo: um esbarrão, uma discussão.
O fim do expediente chegou no meu ouvido e disse com um hálito frio: - Vamos embora e é melhor você passar pelo bairro São Francisco, o trânsito no centro já está infernal. Era o que eu queria: Praça Acrísio de Alvarenga, redonda. Redemoinho de caos e falta de planejamento. São dezoito horas e treze minutos, a tensão surge, sentada, cantarolando, ao meu lado na roda gigante nervosa, caótica com as últimas notas de “Ave Verum Corpus” no azul queimado da tarde de horário de verão... E pronto! O provável acontece: um sujeito barbudo e cansado bate no meu pára-choque traseiro e o afunda. No retrovisor, o cara já está saindo do carro carregando junto com sua nova preocupação, todas as outras mazelas do dia e uma boca revoltada:
- Por acaso hoje é domingo? Hoje é dia de ficar passeando? Se você não fosse tão retardado eu não teria batido em você, filho da puta, desgraçado. Estou cansado de ter que aturar gente lerda no trânsito, folgados, playboys, idiotas que saíram da auto-escola ontem e pensam que são motoristas só porque tem um pedaço de papel plastificado nas mãos. Estou cansado de ser insultado por gente que acha que é dono da via e que pode fazer o que quiser inclusive atropelar uma senhora de 60 anos porque o sinal estava verde, mas ela estava ainda no meio da faixa de pedestre – e fez uma pausa para bufar, quando me inclinei para ele:
- Calma meu amigo! Vamos resolver isso de uma forma diferente. Vou te ensinar como se deve tratar as pessoas no trânsito.
A face dele saltou inteira para minha mão direita que ia em direção ao bolso de dentro do paletó. Numa fração de inocência, tomei três tiros: um no peito, um no pescoço e outra na fronte.
Morrendo, ocorreu-me que as pessoas são a medida exata do que sofrem, vêem e buscam. Respirar, ponderar e aprender são atitudes que suprem nossa bagagem e determinam o que empunhamos. Aquele homem já trazia em sua cintura uma arma de fogo, enquanto eu jazia no asfalto com uma rosa branca grudada na mão.
Marcos Gacê

terça-feira, 23 de agosto de 2011

REVELAÇÃO



Abri mais uma vez os olhos num domingo bonito, preguiçoso e, aí veio a transição: você está num mundo onde tudo é possível e num bocejar já é realidade. É lamentável deixar o sonho, mas já me acostumei. Nem lamento mais, o fato de deixar, mais uma vez inacabadas, as coisas tão possíveis e satisfatórias que só ocorrem do lado de lá dos meus olhos fechados. Enfim!
Lembrei-me de um compromisso firmado com quem, nesse momento, não interessa muito saber o nome. O fato é que eu deveria fotografar uma modelo. Era uma barganha de favores que também não interessa nem um pouco entrar em detalhes que, certamente, tornarão essa prosa enfadonha por demais.
Entramos no carro e seguimos, durante uns vinte quilômetros após os limites da cidade, por uma estrada de terra até um velho sobrado no meio do mato fechado. Era um tanto bucólico o lugar. Aquele seria o cenário para a sessão de fotos.
Saí do carro. Seco, transparente, indiferente, sonolento, óbvio como quem vai comer mais um prato de feijão com arroz.
Peguei o equipamento. A velha Canon analógica, rolos de filmes, tripé e as objetivas. Tudo normal, tudo mesmo! É incrível como a rotina nos cega e padroniza os sentidos e ações. Um truque perfeito do acaso para te esbofetear com o extraordinário.
Ela aparece! Aparece na varanda de cima do sobrado e debruça no parapeito de madeiras robustas que acabara de ganhar um tom azul radiante. Tinha árvores grandes ao redor, com folhagens verdes. Um céu regateiro de um azul exibido e animado.
As pessoas se ajeitavam técnica e convenientemente naquele domingo, enquanto eu já com a máquina empunhada, escolhia os melhores ângulos e planos de fundo para enquadrar aquela menina intrigante.
Cabelos ruivos, pupilas afogadas numa pequena bolsa de mel, pele branca, escoltada por pelos dourados que marchavam numa só direção ao comando de sua respiração voluptuosa. A boca ficava semi-aberta, abandonada, como se estivesse nua. E era linda aquela boca. Não era molhada, era úmida, era culpada, precocemente, de todas as delicias ilícitas que podia causar. E o pior: se camuflava na inocência evidente e protetora.
Cada pose era um assalto, uma afronta a resistência alheia. O corpo branco e longilíneo se encaixava no tempo, no cenário e nas minhas vontades incontroláveis. Nunca conversei, fiz propostas, e negociei tanto pelo olhar, como naquele dia. Nunca cometi com alguém, tanto crime de uma só vez sem sermos notado por ninguém. Ela era perfeita e cúmplice. Era a soma dos melhores resultados das minhas derradeiras práticas venusianas.
Nunca tinha visto e nem registrado um olhar que me desse tanto de sua dona. Como se ela não tivesse controle ao tirar tudo que queria de mim. E isso tudo durou até a noite que também chegou naquele lugar de forma diferente: feito uma amante para o domingo, geralmente antiquado e puritano demais.
Era hora de ir. Acabou! Parece que eu tinha acordado naquele momento. O sabor da realidade veio às vinte horas e trinta e três minutos, amarga e fria. Só não foi mais intragável por causa das réstias de aromas, flashes, e arrepios daquele domingo que foi o mais real de tudo que sonhei até hoje num ser humano.
- Correios! O carteiro gritou lá fora em plena quarta-feira.
- As fotos! Eu gritei dentro de mim como se acordasse naquele domingo.
Abri o pacote como se voltasse no tempo.
Comecei a chorar com as fotos na mão. Juro!Não suportei a emoção!
O tom quente das madeiras do sobrado, os matizes das folhas com seus inúmeros tons de verde, o amarelo do sol daquela manhã descansando nas pedras do terreiro, o azul do céu fazendo pose para o primeiro plano de algumas fotografias, o burburinho das pessoas, a preguiça daquele domingo, até o sonho interrompido estava naquelas fotos.
Menos a menina dos olhos afogados em mel.


Gacê

sexta-feira, 29 de julho de 2011

PLANO DE ASSASSINATO


Ontem foi a gota d’água. Cheguei às quatro da manhã com a cara parecendo ônibus no horário de pico. Mais uma vez sob a influência “dele”.
Ele é alguém que entrou em minha vida, faz alguns anos. Inteligente, persuasivo, galante, divertido. É aquela companhia ideal para os momentos nos quais você só pensa em fugir. Sumir. Tem sempre uma solução e um caminho para te levar à quase todo tipo de diversão e distração. Chega o fim do dia, você cansado do trabalho, das chateações de casa, das dívidas, de todo tipo de tarefas e compromissos, e eis que ele aparece com aquela conversa fácil:
- Marcos, meu amigo! Você merece um descanso. Vamos lubrificar as cordas vocais e molestar as idéias normais!
E você acaba indo fazer bobagem, gastar dinheiro, ficar bêbado na rua, falar o que quer e o que não quer com qualquer um, perder noites de sono e outras coisas que só com o tempo você percebe que perdeu.
Sabe, às vezes tenho a nítida sensação de que ele me assiste nessa procissão de autodestruição, aos berros e gargalhadas. Sempre vislumbro essa imagem ao meu lado. Como um vulto, um irmão, audaciosamente, siamês.
Já tentei me livrar dele, mas não consigo. Esse sujeito tem me feito mal. Ele me seduz. Isso é fato. Estou preso a ele. De alguma forma seu poder vem se apossando cada vez mais de mim.
Ele está aos poucos tomando minha vida, meu dinheiro, meu sono e o pior: deu pra mexer até com minha mulher. Fiquei sabendo que o filho da mãe anda ligando pra ela tarde da noite. Isso eu não vou aceitar. Só tem um jeito de por fim nessa novela: vou matar esse folgado.
Ontem foi quinta-feira, saí do escritório por volta das dezoito horas e ele já estava esperando do outro lado da rua. Aproximei-me animado e já fui logo mandando ver:
- sabe aquele negócio que você vive me propondo fazer?
Ele responde com cara de premiado:
- Sim, claro!
Eu disse – é hoje! Tomei coragem. Vamos ver no que isso vai dar.
Eu já havia colocado um pedaço de pau no carro, atrás da minha poltrona de forma tal que ele não pudesse perceber. Fomos para um lugar, o qual não vem ao caso descrever, e que chamo de “meu recanto”. Nessas minhas dependências, mandei fazer uma edificação para guardar certas tralhas que não uso mais. Uma sala fechada, sem janelas e com perfeito isolamento acústico. Somente uma porta faz a conexão do mundo de cá com o de lá de dento.
Ao chegar, ele foi logo em direção a porta. Parou e colocou as duas mãos para frente facilitando o emaranhado de nós que eu faria com as cordas que ele mesmo havia comprado afim de que um dia fizéssemos uma experiência ousada e que até então eu resistia por convicções próprias.
Depois de deixá-lo nu, amarrado e devidamente amordaçado, o conduzi pra dentro do barraco sem luz. Os olhos do rapaz, de tão excitados, eram as únicas esperanças de luz naquele breu. A euforia durou somente o tempo de eu ir ao carro e voltar guarnecido de um vazio existencial no peito e um pedaço de braúna na mão.
Aqueles mesmos olhos, bruscamente, mudaram de cor, inundados de pavor ao ver aquele pedaço de pau, assassino, flertando com a disposição no meu rosto.
Pensei: - esmago a cabeça dele para que não haja gritos ou qualquer outro barulho que possa me comprometer? Ou...
O rosto jovem e atraente se inundava de choro mudo e os malditos olhos que gritavam algo parecido com suicídio, se aplacaram quando balbuciei:
- Gacê, eu não vou te matar. Vou te deixar aqui trancado, por tempo indeterminado, sem visão, sem tato, sem olfato, sem paladar e sem audição pra ver se minha vida tem sentido sem você.
Marcos Gacê

terça-feira, 26 de julho de 2011

LIBERDADE EM CAMDEN TOWN



- Eu só queria tirar minha roupa, viver nua, pelada o dia inteiro. Comer pelada, brincar pelada, estudar pelada, namorar pelada. Ah! Essa seria a melhor parte.
- Por quê? Porque não existe nada igual ao que eu tenho debaixo da roupa. Ninguém é igual debaixo da roupa. Cada homem é um mundo debaixo de seu pano. Vestida, minhas pernas azuis se juntam a mais quinhentas mil pernas azuis. Meus braços amarelos são irmãos gêmeos de outros tantos.
- Menina, vai vestir roupa. Cuide de sua roupa. Troque sua roupa – Foi o que sempre ouvi. Todo mundo obedece, de um jeito ou de outro. Já vi gente que se desnudou com as próprias mãos. Talvez estivesse apertada demais, ou cheirasse mal, ou provocasse alergia. Enfim!
- Durante os anos em que deixei de ser menina, algo, que não sei explicar nem nos dias de hoje, aconteceu. Coisa maior que minhas indumentárias. Eu, involuntariamente, crescia dentro da roupa. E ela foi apertando meus seios, minhas nádegas, minha vagina, minhas coxas e meus sentimentos como uma laranja. Foi aí que comecei a gritar. O grito provocou os olhares, chamou a atenção. Todo mundo olhou para minhas vestes claustrofóbicas. Meu Deus, que diabo! É isso, só isso que sabem ver? É só isso que vocês querem? É só isso que importa? Enfim!
- Então deixei que viessem tocar, surrar, derramar seus fluídos. Não lavei, não passei, não troquei. Nela caíram labaredas de fogo, de feto, de álcool, de ópio, de coca e cola. Os buracos se tornaram janelas para a entrada do sabor do sol, das águas nuas da chuva, do agrado arrepiado do vento e suas mil mãos. As janelas se tornavam portas para eu ver as flores, os bichos, os rios, os beijos e os olhos dos que são chamados de loucos e pelados.
A moça fez uma pausa e com ela tudo ao redor se calou.
E eu, que andava tranquilamente a ermo naquela tarde de sábado, em julho de 2011, senti a atmosfera, ao mesmo tempo, em todas as partes do corpo. E emergi do silêncio como quando as águas te lançam para cima no processo de afogamento:
- Meu Deus, por que não te conheci antes?
Ela disse sem cor:
- Não se preocupe. Não é só você que se pergunta isso agora.
Eu, sem controle e admirado:
- Beija-me?
Ela disse sem forma:
- Agora é tarde. A não ser que se livre de sua roupa.

Marcos Gacê

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O VEREDICTO


Sempre aprendi a respeitar a casa dos outros e a conquistar a confiança dos anfitriões. Fui criado assim e preservo tais sistemas até os dias de hoje.
Lembro-me de uma vez, quando na ocasião de um festival da canção, na cidade de Ipatinga, em que coloquei a prova essa minha conduta. Fui me apresentar nesse evento junto ao meu parceiro musical e amigo Marçal. Era sábado e o concurso começaria por volta das vinte horas. Se fôssemos para a final no domingo, teríamos que pernoitar naquela cidade.
Marçal era filho do anfitrião, aquele que nos recebera no momento em que chegamos à cidade. Um senhor de olhar longínquo, de palavras ralas. Muito observador e ouvinte. As pessoas naquele pedaço de terra faziam-lhe reverências, à medida que iam chegando ao quintal. Aqueles cabelos brancos, passos meticulosos, administravam o local com maestria centenária. Isso era notório!
Pensei: é aqui que vamos ficar. Preciso impressionar e ganhar a confiança do monarca. O problema era: o que fazer, uma vez que minha fala tranquila e gestos de polidez não produziam efeito algum? O velho andava pra lá e pra cá, com ar de fiscal tirando minha quietude. Eu me convencia: não tenho cara de passar a noite aqui. Envergonhado, peguei a viola para relaxar. O Marçal, fominha de música, não podia escutar um acorde vadio que já improvisava show. Nisso, chamou seu pai para apreciar minha apresentação. Pensei: é agora! Escolhi uma canção cheia de agudos e facetas vocais para impressionar. Se o moço gostar, quem vira rei nesse pedaço sou eu. O velho chamou todo o mundo, até sua esposa que se ocupava dos afazeres domésticos com certa devoção. Parecia um tribunal. Inspirei, respirei e comecei a cantar. A melodia, linda, bailava com as notas altas e longas que saiam de minha garganta acuada. O silêncio emocionado pairava no ar. Aquela figura que, de certa forma, era uma ameaça ao meu pernoite me Ipatinga se curvava lentamente em minha direção. A expressão dele se encolhia, à medida que a música crescia. Parecia ver algo divino em mim. A admiração era notória! Eu vibrava por dentro, já imaginando a premiação. Já sentia o calor dos aplausos. Era como se estendessem um tapete vermelho nos meus ouvidos para o desfile da frase: “seja bem-vindo: a casa é sua!”.
A música acabou. O velho se curvou para meu pescoço e fitou minha garganta como um arqueólogo diante da ossada de Jesus e disse, interrompendo o silêncio infernal que corrói qualquer avaliado: “ÔH, GUELA BOA PRA UMA FACA”.


Gacê
Revisão: Sônia Oliveira

quarta-feira, 20 de julho de 2011

PENO CALADO



Engraçado! Considero-me um pensador. Minha cabeça tem mil coisas: idéias, planos e conceitos, na maioria das vezes, comprometem minha estada nessa sociedade convenientemente implantada. Eu penso sobre o amor e o que ele é. Sim, tenho teorias interessantes. Ainda tem sexualidade, relacionamentos, Deus, sonhos, poder, matar, dominar, bem e mal, e por aí vai. Acreditem: minhas idéias a respeito desses assuntos me condenam. Eu seria apedrejado, linchado, preso, abandonado e ridicularizado se viessem à tona. Bom, não sejamos tão exagerados, tem uma parcela de seres que se deleitariam com tais novidades.
Pretensioso? Não sei. Não é essa a questão aqui. O fato é que sou um preguiçoso e sofro com a impotência das mãos que não buscam o registro. Peno, diariamente, como se estivesse numa matinê, ocupando uma das centenas de poltronas na minha cabeça, diante do telão, vendo um filme de idéias passarem. Só passarem. Sou um preguiço e o engraçado é que lendo o blog de uma mocinha, tomei uma surra. Uma surra de atitude. Ela não fala coisa com coisa, mas pelo menos fala.


Gacê

domingo, 23 de agosto de 2009

TODO MUNDO É BI



Feijão com arroz, um prato especial, essencial e comum entre os brasileiros, isso porque o feijão junto com o arroz forma uma combinação perfeita ao fornecer ao corpo a maioria dos nutrientes necessários para se manter. Mas isso não é uma lei. Quem de nós não experimentou um delicioso doce de arroz? Ou arroz com estrogonofe? Sopa de arroz com frango? Doce de feijão? Feijão tropeiro? Uma delicia! Pois bem, independente do que o nosso corpo precisa para se manter, temos o prazer, que deve ser explorado e saboreado permanentemente para alimentar o espírito assim como se alimenta o corpo.E por falar em corpo, os primeiros homens “sapiens”, em minha opinião e estudos, se equivocaram naquilo que determinou o formato antropológico da sociedade mundial: a relação ou o discernimento entre reprodução e prazer.A cópula não tem que, necessariamente, ser realizada entre homem e mulher. A reprodução sim. A natureza usa sabiamente o prazer como uma “isca” para que seu ciclo continue. O homem tem o pênis, de forma cilíndrica e externa para poder levar em segurança pra dentro da mulher, suas células reprodutoras. Não quer dizer que são essencialmente ferramentas do sexo. O mesmo acontece com a mulher. Ninguém faria sexo e, conseqüentemente, se reproduziria se não houvesse a “isca”, que começa no olhar, que se intensifica com o toque, com o cheiro, com o calor, o gosto e a voz.Uma pessoa num quarto escuro, nua, ao receber o toque de uma boca, quente, molhada e delicada, no pescoço, nos ombros, sobre o peito, nos seios, nas partes internas dos braços, na barriga, na virilha e no pênis ou na vagina, certamente vai sentir um prazer enorme sem saber se a boca era masculina ou feminina.Todos nós já sentimos atração pelo igual, na maioria das vezes inconscientemente, por que do contrário, já estamos convencionados e educados a repelir qualquer outra idéia que foge a regra.A obviedade dos fins de reprodução acabou gerando uma verdadeira constituição de leis, e determinou categorias e conceitos de tudo aquilo que fugia a essa regra. Isso teve, por um lado, um efeito memorável na organização social e por outro, um grande nicho de preconceito e constrangimento individual e social.Pense bem nisso! Não estou aconselhando nenhuma mudança radical de comportamento sexual, mas abrir a mente para avaliar prazer e reprodução do ponto de vista aqui exposto é sem dúvida um grande passo para seu autoconhecimento, abolição de preconceitos, tabus internos e a busca de novas receitas de felicidade.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

TRÉPLICA

É... pode ser que eu não seja mesmo poeta
Talvez pelo falto de nunca ter subido montanhas
E lá do alto olhar as minúcias com um carinho que dói
Talvez por não saber que o sol é o sorriso de Deus
Gratuito para todo homem que deseja ofuscar o próximo
Talvez eu não entenda na arte o fascínio divino
Que faz os olhos ejacularem lágrimas no fim de um tom
Talvez eu não saiba de muitas coisas que só meu coração segreda
Para proteger os outros de minhas fúrias inocentes
Pode ser ainda que você
Convicto de minha suposta timidez
Pense que nunca despi minha alma
Por só ter olhos para os meus trajes humildes e materiais
Mas eu lhe peço com todo apreço
Dá-me um instante de perdão
E brinde com sua genialidade
As minhas iludidas experiências
Para que estas se tornem o seu modelo de poesia


Marcos Gacê - Itabira MG